O Brasil tem além de eventos extremos a memória curta.
- Climares-wash Brasil
- 9 de jul.
- 5 min de leitura
Atualizado: 16 de jul.
Escrito por: Fernando Jorge Corrêa Magalhães Filho

Após 2 anos da inundação de 2024, será que estamos preparados para uma próxima
cheia?
Toda vez que acontece uma tragédia dessas — como no Rio Grande do Sul, em maio de 2024, o roteiro é sempre o mesmo: “evento imprevisível” de uma “chuva fora da curva” que leva à uma “tragédia climática”. Pronto, fecha-se o diagnóstico.
Mas não foi (ou é) só no RS, também acontece(u) em Minas Gerais, na Serra Fluminense, em Recife e diversos outros locais do nosso país.
No caso mais recente, e talvez já esquecido, as chuvas de fevereiro de 2026 em Minas Gerais, deixaram mais de 70 mortos, com colapso urbano em cidades como Juiz de Fora e Ubá, deslizamentos generalizados e milhares de desabrigados.
Foi o episódio mais letal em décadas no estado, dentro de um período chuvoso que já acumula mais de 80 mortes — o pior em 20 anos. Uma mistura de chuva recorde, com solo saturado, deslizamentos e colapso, dramático (e familiar).
Se você olhar para trás, percebe que o Brasil não está sendo surpreendido.
Está sendo repetidamente testado — e reprovado.
2024: Rio Grande do Sul — colapso sistêmico em escala de bacia;
2023–2022: eventos recorrentes no Sudeste e Nordeste;
2011: Região Serrana do RJ — um dos maiores desastres do país;
todo verão: manchetes diferentes, mecanismo igual.
A geografia muda. O padrão não. O problema não é a exceção. É a recorrência.
Por exemplo, no caso do Rio Grande do Sul, a enchente não destruiu o sistema, simplesmente. Talvez tenha revelado que o sistema, de fato, não existia, pelo menos não para o que se propunha.
É de costume achar que o evento causa o colapso. Não causa. O evento apenas revela, com brutal honestidade, o que já estava errado.
Os desastres não são apenas naturais — eles são amplificados pela falha da infraestrutura, das vulnerabilidades e da gestão existente. A chuva extrema é condição necessária. O desastre se dá diante de decisões sucessivas e acumuladas.
Vale relembrar que foram:
478 dos 497 municípios atingidos;
cerca de 2,4 milhões de pessoas impactadas;
mais de 600 mil desalojados;
colapso no abastecimento de água para milhões de gaúchos.
Assim fica fácil compreender que esses eventos extremos não são apenas intensos — eles são sistêmicos.
Não é só chuva forte, é duração prolongada ou rápida de demais para pouco tempo de reação e resposta; há vínculo com a saturação prévia do solo; dinâmica entre bacias; resposta integrada; e eventual permanência elevada dos níveis d’água. É o sistema inteiro entrando em regime de falha ao mesmo tempo.
O que temos ignorado? O evento pode ser extremo. A vulnerabilidade é construída.
Porque veja o caso de Minas: chuvas acima da média por semanas, ocupação em áreas de risco, deslizamentos em encostas urbanizadas e milhares de desabrigados. De fato, nada disso é surpresa técnica. E, ainda assim, se reage politicamente como se fosse azar. Porque assumir a realidade exigiria admitir algo incômodo: desastre não começa na chuva, começa na decisão.
Decisão de: onde permitir ocupação; investir em drenagem, planejar cidades com olhar atento ao uso do solo e não ao setor imobiliário apenas, visão integrada do saneamento, drenagem e uso do solo; e o mais complexo - como gerenciar/coordenar municípios dentro de uma bacia? É falta de governança.
E pode piorar? Sim, pois há um detalhe que já é conhecido — e perigoso.
Estudos recentes indicam que eventos como esses tendem a se intensificar no futuro, tanto em frequência quanto em magnitude. O Brasil não está lidando com exceções. Está lidando com o início de um novo padrão. E insistindo em respostas antigas, talvez.
No fim, a pergunta não é mais: “foi um evento extremo?” A pergunta correta é: Por que um evento esperado continua gerando desastre?
Será que tratamos o risco hidrológico como emergência — e não como parâmetro para se fazer gestão?
Enquanto isso não mudar, vamos continuar fazendo o que fazemos melhor: transformar recorrência em surpresa e previsibilidade em tragédia.
É importante lembrar que se teve e se tem uma falha sistêmica e simultânea de todos os componentes da infraestrutura hidrícia e sanitária. Parada do Abastecimento de Água, com população sem acesso à água potável. Interrupção da coleta e tratamento do Esgotos, criando contato de excretas e efluentes com a água da inundação. Sistema de Drenagem de Águas Pluviais inoperante e gerenciamento de Resíduos Sólidos urbanos paralisado, criando condições de risco de contaminação elevadas.
Tudo ao mesmo tempo. Negligenciar um componente compromete todos os outros, em especial o sistema de proteção contra cheias. Muitas vezes inexistentes e em outras desintegrados.
Mesmo quando não se está em condição extrema, mas a drenagem falha, é comum que o esgoto extravasa, contamina a água e solo e coloca em risco o abastecimento. Efeito em cascata que precisa de um desastre para nos lembrar de uma engenharia básica.
Escolhas e prioridade.
No papel é gestão integrada, na prática é como de fato evoluiu: primeiro abastecimento de água com o PLANASA, depois tentativas por esgotos, e talvez e se der, quem sabe a drenagem (se sobrar dinheiro, claro). Resultado: um sistema estruturalmente incompleto por desenho. Drenagem urbana e sistema de proteção contra cheias praticamente sem modelo de financiamento, sem prioridade e sem integração real. O componente mais diretamente ligado a inundações e enchentes é justamente o mais negligenciado.
Mas claro, drenagem não dá tarifa. O que não dá tarifa tende a não existir.
O que aconteceu em 2024 combina: volume de chuva extremo, resposta hidrológica intensa, ocupação em áreas de inundação, infraestrutura fragmentada e um resultado que não é surpresa, é consequência (hidro)lógica.
E aqui chegamos ao ponto central e na tecla que temos batido: o Brasil opera com um modelo setorial para um problema sistêmico. Temos o plano de saneamento (incompleto e não gerenciado) de um lado; plano diretor de outro; plano de bacia em outro universo; e a realidade completamente descoordenada.
E então vem a frase favorita: “precisamos investir mais”. Talvez, mas precisamos mudar o paradigma. E isso significa: integrar políticas urbanas, ambientais e de saneamento; planejar em escala de bacia; incorporar gestão de risco; fortalecer governança e regulação
A cheia é natural, o desastre é produzido. Produzido por: ocupação inadequada, planejamento fragmentado, infraestrutura incompleta e governança fraca. Enquanto continuarmos tratando isso como “evento extremo” — e não como falha sistêmica — vamos repetir o ciclo: chuva → desastre → reconstrução → esquecimento.
Voltamos então ao ponto da alocação de recursos: melhorar a alocação de recursos pode gerar mais impacto do que simplesmente aumentar o volume de investimento.
Mas isso exige uma coisa raríssima no setor público brasileiro: dizer “não”. Não para: projetos mal posicionados, obras de baixo impacto sistêmico e investimentos politicamente convenientes. E isso, convenhamos, é quase uma ruptura civilizatória.
Sem priorização adequada, sem planos que maximizem os impactos positivos com a alocação correta de recursos, não existe estratégia de fato. Sem estratégia, não existe um sistema; e sem sistema, não existe resultado. Existe apenas gasto.
Não aprendemos a transformar gasto em resultado sistêmico - e isso sim seria realmente investimento. É porque isso exige: integração entre níveis de governo; coordenação em escala de bacia-municípios; critérios transparentes de alocação e, sobretudo, racionalidade sob escassez.
Temos a incapacidade de escolher. Escolher onde investir, quando investir e quem realmente precisa primeiro. Enquanto essa escolha continuar sendo guiada por fragmentação e conveniência — e não por critério técnico — vamos seguir presos no mesmo ciclo: "investimos", mas não resolvemos, apenas gastamos, não priorizamos ou não gerenciamos, ou seja, não coordenamos. E depois, claro, concluímos: “falta dinheiro”.
Esse texto não é sobre a enchente de 2024 em si, mas um lembrete para não ficar no esquecimento - claro que é importante lembrar, e manter vivo para não errar novamente. Mas é sobre algo mais profundo: a incapacidade de pensar sistemas complexos de forma integrada.
E enquanto isso não mudar, vamos continuar fazendo o que fazemos melhor: culpar a natureza por problemas que são, em grande parte, institucionais.
Nosso novo projeto com um baita time de pesquisadores do ClimaRes WaSH Brasil/FAPERGS - Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul têm buscado ações mais sistêmicas e coordenadas em prol da resiliência climática. Visite nosso Site e Instagram.


Comentários