Uma reflexão sobre a concepção no saneamento: uma série de perguntas erradas e respostas preguiçosas
- Climares-wash Brasil
- 16 de jul.
- 3 min de leitura
Por: Fernando Jorge Corrêa Magalhães
Nas últimas semanas, o Portal Saneamento Básico publicou uma sequência de artigos sobre sistemas centralizados, descentralizados, híbridos de esgotamento sanitário e, mais recentemente, sobre a necessidade de um novo modelo para a drenagem urbana baseado em desempenho hidrológico.
Ao ler os quatro textos, uma conclusão me parece inevitável:
O maior obstáculo do saneamento brasileiro é preguiça mental. Por décadas, tratamos a infraestrutura de saneamento como uma disputa entre torcidas com a manutenção de um modelo padrão. Por exemplo, de um lado, os defensores da centralização e do outro, os defensores da descentralização.
E é assim com outras dicotomias que na prática não fazem o menor sentido, tais como: anaeróbio vs aeróbio, ou SbN vs. infra cinza e por aí vai, sem chegar em lugar algum. Sempre com a mentalidade de: "Ah, isso nós já fizemos e não funcinou". Risca-se do processo decisório e nunca mais entra como opção.
Assim segue cada grupo convencido de que possui a solução universal para problemas que são, por definição, locais. Mas a engenharia nunca funcionou assim.
Os artigos do Portal mostram algo que deveria ser óbvio: sistemas centralizados apresentam vantagens relevantes em áreas urbanas densas, onde economias de escala favorecem a implantação de redes coletoras e grandes estações de tratamento. Da mesma forma, sistemas descentralizados podem representar alternativas mais eficientes para comunidades rurais, ocupações dispersas, áreas periurbanas e localidades onde a expansão da infraestrutura convencional é economicamente inviável.
A questão não é escolher um lado. A questão é entender onde cada solução faz sentido.
Alguns defendem que toda casa deve estar conectada a uma rede coletora que conduza o esgoto por quilômetros até uma grande ETE. Não importa o relevo, a densidade populacional, os custos energéticos ou a viabilidade econômica. A resposta já está pronta antes mesmo da pergunta existir.
Do outro lado, basta instalar sistemas locais e comunitários que todos os problemas serão resolvidos. Como se operação, monitoramento, gestão do lodo, fiscalização e capacitação técnica fossem detalhes irrelevantes.
Enquanto isso, a realidade continua ignorando os ideólogos. A engenharia sempre foi a ciência do contexto. Afinal, engenheiros sempre respondem iniciando uma frase com a palavra "depende".
Por isso, talvez a discussão mais interessante seja justamente aquela apresentada no artigo sobre sistemas híbridos. Não porque os sistemas híbridos sejam uma "terceira via" politicamente conveniente. Mas porque reconhecem uma realidade frequentemente ignorada: cidades são heterogêneas. Elas possuem diferentes densidades populacionais, características topográficas, capacidades de investimento e condições operacionais.
Por que insistir que uma única solução deva servir para todos?
A estagnação pela descontinuidade em investimentos que deixou como herança um déficit setorial a ser equacionado pode ser uma das razões. O desafio que se segue não se encontra na defasagem tecnológica do setor, mas, sobretudo, na falta de planejamento de seus gestores, comprovada pela baixa adesão na elaboração, execução e principalmente compreensão da importância de Planos Municipais de Saneamento e Planos Diretores de Drenagem Urbana (Santos et al., 2015).
Esse mesmo raciocínio aparece, de forma ainda mais evidente, na discussão sobre drenagem urbana. O artigo sobre o novo PAC da drenagem chama atenção para uma mudança conceitual importante: deixar de avaliar apenas obras e passar a avaliar desempenho hidrológico.
Parece simples, mas é um grande diferencial. Porque desloca a pergunta de: "Quantos metros de galeria foram construídos?" para "Quanto risco de inundação foi efetivamente reduzido?"
Durante mais de um século, acreditamos que o objetivo era retirar a água das cidades o mais rapidamente possível. Canalizamos rios; impermeabilizamos solos; construímos galerias cada vez maiores; aumentamos vazões; aceleramos escoamentos; e depois nos surpreendemos com enchentes cada vez mais frequentes.
Da mesma forma, no esgotamento sanitário, talvez devêssemos parar de perguntar apenas:
"Quantos quilômetros de rede foram implantados?" e começar a perguntar "Quanto esgoto está efetivamente sendo coletado, tratado e tendo seu impacto ambiental reduzido - melhorou a qualidade água, se fez reúso agrícola, diminuiu doenças de veiculação hídrica, aumentou o preço do imóvel-terreno local, o turismo se beneficiou?"
Infraestrutura não é um fim em si mesma. Tubulações, Estações de Tratamento e Canais de drenagem não são um objetivo. Todos eles são apenas meios.
Mas no Brasil ainda existe quem trate jardins de chuva, wetlands, reservatórios de detenção, infiltração e infraestrutura verde como se fossem excentricidades acadêmicas. Enquanto isso, "seguimos investindo" para acelerar o transporte da água para o problema do vizinho.
O verdadeiro objetivo é entregar desempenho ambiental, saúde pública, segurança hídrica, resiliência climática e qualidade de vida. O século XXI exige menos dogmas e mais engenharia. Menos ideologia ou preguiça na concepção e tomada de decisão tecnológica e mais análise de contexto e cenários.
Menos debates entre centralização e descentralização, público ou privado, concreto ou verde, UASB ou Lodo Ativado, e mais compromisso com aquilo que realmente importa: Resultados.
Santos, R. F. et al. (2015). Abordagem descentralizada para concepção de sistemas de tratamento de esgoto doméstico. RETC, 16.
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